sábado, 27 de fevereiro de 2010

Pepetela

“Olhou na direcção de Calpe. Sabia, ela estava lá, a cidade que para muitos era de sonho e a ele trazia apenas temor. A distância era grande, nem um ruído nem uma ténue coluna de fumo a indicavam. Mas ela estava lá, a dois ou três dias de marcha, ele sabia. Nunca tivera curiosidade de a conhecer, sempre a sentira como um perigo longínquo. Agora o perigo estava mais perto, cada vez mais perto.
Não o perigo anunciado pelo cágado velho que saiu da gruta e para ele caminhava, nos seus passos incertos. Os cágados não trazem perigos e esse era seu conhecido desde sempre. Habitava na gruta perto do sítio onde Ulume todas as tardes se sentava. Passava perto dele para ir beber água onde nascia o regato que dessedentava as suas plantações e os gados e as gentes. Era sempre o primeiro a beber daquela água, a água da criação. Ulume deixava-o beber e voltar para perto da gruta, onde ficava a comer capim tenrinho. Depois Ulume se levantava e ia também beber água. Estavam estreitamente unidos nesse ritual de serem os primeiros a beber do regato. Mas sempre Ulume deixava as primícias para o cágado, nunca se perguntava porquê. Como se cumprisse um cerimonial desconhecido mas eterno.”
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Parábola do Cágado Velho
Pepetela