VI – Vedes que estou imitando os retóricos do nosso tempo, que se julgam uns deuses pelo facto de serem bilingues como as sanguessugas, e que julgam preclaro imiscuir no discurso latino algumas palavras gregas, compor um mosaico que nem sempre vem a propósito. À falta de palavras exóticas, vão buscar quatro ou cinco fórmulas arcaicas aos pergaminhos pútridos, ofuscando com trevas os olhos do leitor, para que assim os entendedores mais orgulhosamente se deleitem e para que os ignorantes tanto mais admirem quanto menos compreendam. Pois é bem certo que todos encontram prazer no que lhes é mais alheio e distante. A vaidade está nisso interessada; riem, aplaudem, movem as orelhas como o asno que quer desse modo mostrar que compreendeu: «É assim mesmo, é tal e qual. (…)
XLV – Mas, dirão é mísero ser enganado; eu direi, misérrimo é não o ser. O maior erro é dos que estimam que a felicidade do homem está nas realidades; ela depende da opinião que ele tiver. (…) Se um homem come toucinho pútrido, de que outro nem sequer suporta o cheiro, mas que lhe sabe a ambrósia – que tem a ver a verdade com a felicidade? Pelo contrário, se a outro o salmão causa náuseas, que temos nós com isso? Se uma mulher disforme parece aos olhos do marido ser a própria Vénus, não valerá tanto para ele como se fosse verdadeiramente formosa? O possuidor de um mau quadro, borrado com drogas várias, contempla-o e admira-o, como persuadido de que vê uma pintura de Apeles ou de Zêuxis; mas não será mais feliz do que aquele que comprou, por elevado preço, uma obra-prima daqueles artistas, e que olhará para ela com menos ingénua volúpia? Conheci alguém do meu nome, que deu à mulher umas jóias falsas, e persuadiu-a, porque era bom falador, de que eram não só verdadeiras e naturais, mas também raras e de inestimável preço. Pergunto: que interessa isso à mulher? Esses vidros e metais alegravam-lhe os olhos e a alma; conservava-os junto de si como um tesouro exímio.
XLV – Mas, dirão é mísero ser enganado; eu direi, misérrimo é não o ser. O maior erro é dos que estimam que a felicidade do homem está nas realidades; ela depende da opinião que ele tiver. (…) Se um homem come toucinho pútrido, de que outro nem sequer suporta o cheiro, mas que lhe sabe a ambrósia – que tem a ver a verdade com a felicidade? Pelo contrário, se a outro o salmão causa náuseas, que temos nós com isso? Se uma mulher disforme parece aos olhos do marido ser a própria Vénus, não valerá tanto para ele como se fosse verdadeiramente formosa? O possuidor de um mau quadro, borrado com drogas várias, contempla-o e admira-o, como persuadido de que vê uma pintura de Apeles ou de Zêuxis; mas não será mais feliz do que aquele que comprou, por elevado preço, uma obra-prima daqueles artistas, e que olhará para ela com menos ingénua volúpia? Conheci alguém do meu nome, que deu à mulher umas jóias falsas, e persuadiu-a, porque era bom falador, de que eram não só verdadeiras e naturais, mas também raras e de inestimável preço. Pergunto: que interessa isso à mulher? Esses vidros e metais alegravam-lhe os olhos e a alma; conservava-os junto de si como um tesouro exímio.
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Elogio da Loucura
Erasmo de Roterdão
Erasmo de Roterdão





