sexta-feira, 18 de junho de 2010

Erasmo de Roterdão

VI – Vedes que estou imitando os retóricos do nosso tempo, que se julgam uns deuses pelo facto de serem bilingues como as sanguessugas, e que julgam preclaro imiscuir no discurso latino algumas palavras gregas, compor um mosaico que nem sempre vem a propósito. À falta de palavras exóticas, vão buscar quatro ou cinco fórmulas arcaicas aos pergaminhos pútridos, ofuscando com trevas os olhos do leitor, para que assim os entendedores mais orgulhosamente se deleitem e para que os ignorantes tanto mais admirem quanto menos compreendam. Pois é bem certo que todos encontram prazer no que lhes é mais alheio e distante. A vaidade está nisso interessada; riem, aplaudem, movem as orelhas como o asno que quer desse modo mostrar que compreendeu: «É assim mesmo, é tal e qual. (…)

XLV – Mas, dirão é mísero ser enganado; eu direi, misérrimo é não o ser. O maior erro é dos que estimam que a felicidade do homem está nas realidades; ela depende da opinião que ele tiver. (…) Se um homem come toucinho pútrido, de que outro nem sequer suporta o cheiro, mas que lhe sabe a ambrósia – que tem a ver a verdade com a felicidade? Pelo contrário, se a outro o salmão causa náuseas, que temos nós com isso? Se uma mulher disforme parece aos olhos do marido ser a própria Vénus, não valerá tanto para ele como se fosse verdadeiramente formosa? O possuidor de um mau quadro, borrado com drogas várias, contempla-o e admira-o, como persuadido de que vê uma pintura de Apeles ou de Zêuxis; mas não será mais feliz do que aquele que comprou, por elevado preço, uma obra-prima daqueles artistas, e que olhará para ela com menos ingénua volúpia? Conheci alguém do meu nome, que deu à mulher umas jóias falsas, e persuadiu-a, porque era bom falador, de que eram não só verdadeiras e naturais, mas também raras e de inestimável preço. Pergunto: que interessa isso à mulher? Esses vidros e metais alegravam-lhe os olhos e a alma; conservava-os junto de si como um tesouro exímio.

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Elogio da Loucura
Erasmo de Roterdão

terça-feira, 25 de maio de 2010

Somerset Maugham

“(…) Vai perceber à medida que for ficando mais velho que a primeira coisa indispensável para que o mundo seja um sítio suportável para viver é reconhecer a inevitabilidade do egoísmo no ser humano. Exige a generosidade dos outros, mas é absurdo exigir que os outros sacrifiquem os seus desejos em benefício dos seus. Porque deveriam? Quando se convencer de que cada um está sozinho no mundo pedirá menos aos seus semelhantes. Eles não irão desiludi-lo e olhará para eles de maneira mais caridosa. O ser humano procura uma só coisa na vida: o seu próprio prazer.
- Não, não, não! - Exclamou Philip.
Cronshaw deu uma risada de satisfação.
- Empina-se todo como um potro assustado só porque usei uma palavra a que o seu cristianismo atribui um significado depreciativo. Você tem uma hierarquia de valores e o prazer está na base da pirâmide. (…) Mas eu falo de prazer porque vejo que os homens o ambicionam e não vejo que ambicionem a felicidade. É o prazer que espreita na prática de cada uma das suas virtudes. O homem age porque essas acções são boas para ele e quando também são boas para outras pessoas passam a ser virtudes. Se tem prazer em dar uma esmola é caridoso; se tem prazer em ajudar os outros é benevolente; se tem prazer em trabalhar em prol da sociedade é um filantropo; mas é para seu próprio prazer que você dá dois pence a um pedinte assim como é para meu prazer privado que bebo mais um whisky com soda.”









Servidão Humana
Somerset Maugham

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Nicolau Maquiavel

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Aqueles que, como estes, se tornam príncipes por via da sua virtude conquistam com dificuldade o principado, mas facilmente o conservam; e as dificuldades que têm de vencer para conquistar o principado resultam, em parte, das novas ordens e dos novos costumes que são obrigados a introduzir para fundarem o seu Estado e garantirem o seu poder. E deve ter-se em conta que não há coisa mais difícil de tratar, de êxito mais duvidoso, e mais perigosa de manejar, do que ousar introduzir uma nova ordem; porque aquele que a introduz tem como inimigos todos os que se aproveitam da ordem antiga, e como tíbios defensores todos os que se poderão aproveitar da nova. Essa tibieza resulta, em parte, do medo aos adversários, que têm as leis do seu lado, e em parte, da incredulidade dos homens, que não acreditam verdadeiramente nas coisas novas, se delas não têm uma experiência bem firmada; daí resulta que, sempre que têm ensejo de atacar, os que são avessos às coisas novas atacam facciosamente e os outros as defendem tibiamente, pelo que com eles se corre perigo.
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O Príncipe
Nicolau Maquiavel

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Capitão Charles Johnson

O Capitão Teach, também conhecido como Barba Negra, passou três ou quatro meses no rio, por vezes fundeando nas enseadas, outras vezes navegando de uma baía para outra, negociando com as chalupas que encontrasse no caminho a venda dos espólios que tomara, e oferecendo-lhes, por vezes, como presente, os equipamentos e provisões que lhes roubara; e acontecia isso apenas se ele estivesse de humor generoso, pois que, noutras ocasiões, ele dirigia-se-lhes com a maior audácia, levando o que lhe aprouvesse sem nada perguntar nem pedir licença, sabendo perfeitamente que nenhum deles se atreveria a exigir-lhe o pagamento. Era frequente o Capitão regozijar-se com idas a terra, entre os donos de plantações, onde vivia a seu bel-prazer dia e noite.
(...) Por conseguinte, e no maior segredo possível, este grupo de homens enviou uma delegação à Virgínia para apresentar o caso perante o governador dessa colónia e para lhe rogar uma força armada dos navios de guerra aí ancorados, que viesse deter ou destruir este pirata.
(...) Barba Negra saltou a bordo com catorze homens, por sobre a chalupa de Maynard, que não o viu senão quando o fumo se dissipou; contudo nessa precisa altura havia ele dado sinal a seus homens, que se ergueram todos num ápice e atacaram os piratas com bravura inédita em semelhantes ocasiões. Barba Negra e o tenente dispararam os primeiros tiros de pistola um contra o outro, tendo o pirata sido ferido, e em seguida travaram combate à espada, até que a do tenente, desafortunadamente, se quebrou. No momento em que recuava Maynard para apontar novamente a pistola ao pirata, estava este desfechando um golpe contra o tenente com o seu cutelo, mas um dos homens de Maynard infligiu-lhe uma terrível ferida no pescoço e na garganta, pelo que o tenente se salvou com apenas um ligeiro corte nos dedos.
A batalha prosseguia feroz e física, o tenente e seus doze homens contra Barba Negra e seus catorze, até o mar se tingir de sangue em redor da embarcação. Barba Negra sofreu um tiro da pistola disparada pelo Tenente Maynard, mas ainda assim manteve-se firme e continuou lutando com grande fúria até receber vinto e cinco feridas, cinco delas de balas de pistola. Por fim, estando ele a apontar uma pequena arma de fogo, após ter disparado várias outras antes, caiu por fim morto...
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História Geral dos Piratas
Capitão Johnson

domingo, 28 de março de 2010

Um homem desempregado vê o seguinte anúncio:"Oferece-se trabalho pouco cansativo, a tempo inteiro, e salário compatível. Telefonar para o Zoo local".
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Imediatamente, o homem telefona ao director do Jardim Zoológico:
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- Bom dia. Ouvi dizer que os senhores têm uma oferta de emprego. Estou interessado.
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- Muito bem. O nosso macaco morreu, há pouco tempo, e estou à procura de alguém para o substituir. São 8 horas por dia, 1500 euros e refeições gratuitas. Não é muito cansativo, basta fazer caretas aos turistas para os entreter.
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- Aceito com todo o prazer, Sr. Director!
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Durante cerca de duas semanas, o nosso amigo aprende a empoleirar-se nas árvores da sua jaula sem cair.
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Um dia, na hora do espectáculo, um ramo escapa-lhe das mãos e ele cai na Cova dos Leões. O leão aproxima-se dele a passos lentos. O homem disfarçado de macaco agarra-se às grades, aos gritos:

- Socorro! Socorro! Tirem-me daqui!

Então o leão susurra-lhe:

- Chiu! Está calado, senão somos despedidos!


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+ 365 Piadas

sábado, 20 de março de 2010

Thomas More

“Este homem, chamado Rafael (...) estava tão desejoso de ver o mundo, que dividiu o património pelos irmãos (ele é Português de nascimento) e seguiu a sua sorte com Américo Vespúcio. (...)
Um dia, quando jantava com ele, estava presente um jurista inglês, que aproveitou para louvar, de algum modo, a severa execução da justiça sobre os ladrões que, como disse naquela altura eram enforcados tão depressa, que por vezes havia vinte deles na armação de madeira para enforcados. (…)
Tomei a liberdade de falar livremente perante o cardeal e disse:
- Não há razão para pensar sobre o assunto. Este modo de punir ladrões não é justo em si nem é bom para o público. A solução não é eficaz, pois a severidade é demasiado grande. O simples furto não é um crime tão grande que tenha de custar a vida a um homem e, por muito severo que seja o castigo, não é suficiente para impedir alguém de furtar, por não encontrar um outro modo de vida.
Nisto, não só vós, na Inglaterra, mas uma grande parte do mundo parece imitar maus professores, que estão mais prontos para castigar os alunos do que para ensiná-los. Castigos severos e horríveis são decretados contra o furto, quando seria melhor dar a capacidade a cada homem de ganhar a sua vida, em vez de ser levado à necessidade fatal de furtar e ser morto por causa disso.
(…)
Certamente, é errado pensar que a pobreza do povo é uma salvaguarda de paz pública. (…) Se um rei for tão odiado e escarnecido pelos seus súbditos que só os pode governar através de insultos, de injustiças, da confiscação e do empobrecimento, certamente melhor fora para ele abandonar o reino do que manter o título de autoridade quando já perdera a majestade da realeza, através do seu desgoverno. É menos favorável à dignidade de um rei o reinar sobre pedintes do que sobre súbditos ricos e felizes. (…) Quando um governante usufrui da riqueza e do prazer, enquanto que todos à sua volta estão desolados e gemebundos, ele age como guarda de uma prisão (…)
Um rei que apenas consegue governar o seu povo retirando-lhe os prazeres da vida mostra que não sabe governar homens livres.”



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Utopia
Thomas More

sexta-feira, 12 de março de 2010

Camilo Castelo Branco

Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse o passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de João das Regras e Martim de Océm, como o Mosteiro da Batalha, as Ordenações Manuelinas como o Convento dos Jerónimos.
(…)
O orador: - (…) Lastimo este luxo que vejo em Lisboa! Por toda a parte, ouro, pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades! Parece que toda esta gente voltou ontem da Índia nas naus que trouxeram os párias do Oriente! Essas ruas estrondeiam de carruagens, calechas e berlindas, como se cada dia se estivesse comemorando a passagem do Cabo Tormentório ou o descobrimento da Terra de Santa Cruz, atirando às rebatinhas os tesouros que de lá nos vêm. Por entre estas soberbas carroças…
Um deputado: - Carroças são de lixo.
O orador: - E bem pode ser que seja de lixo o que vai nelas… Por entre estas soberbas carroças, senhor presidente, vejo eu passar mal arrimados às paredes, e temerosos de serem esmagados, uns homens de aspecto melancólico e mal entrajados. Nestes cuido eu ver D. João de Castro, que empenhou as barbas, e tem duas árvores em Sintra; Duarte Pacheco, que vai entrar no hospital: e Luís de Camões que vem de comer as sopas dos frades de S. Domingos. Cada época tem centenares destas ilustres vítimas.
Um deputado: - Vê coisas magníficas!
O orador: - E também vejo o dedo do profeta escrevendo na parede daquele devasso festim… (…) O que eu vejo? Quer o ilustre deputado saber o que eu vejo? É a indústria agrícola de Portugal devorada pelas fábricas do estrangeiro; é o braço do artificie nacional alugado às escravidão do Brasil porque a pátria não lhe dá fábricas; é o funcionário público prevaricado, corrupto e ladrão, porque os ordenados lhe não bastam ao luxo em que se desbarata; é o julgador dos vícios e crimes sociais transigindo com os criminosos ricos, para poder correr parelhas com eles em regalias; é a mulher de baixa condição prostituída, para poder realçar pelos ornamentos sua beleza; é a aluvião de homens inábeis, que rompe contra reposteiros das secretarias pedindo empregos, e conjurando das revoluções, se não lhos dão. O que eu vejo, senhor presidente, são sete abismos, e à boca de cada um o rótulo dos sete pecados capitais que assolaram Babilónia, Cartago, Tebas, Roma, Tiro, etc. É o luxo, senhor presidente!









A Queda dum Anjo
Camilo Castelo Branco