sábado, 20 de março de 2010

Thomas More

“Este homem, chamado Rafael (...) estava tão desejoso de ver o mundo, que dividiu o património pelos irmãos (ele é Português de nascimento) e seguiu a sua sorte com Américo Vespúcio. (...)
Um dia, quando jantava com ele, estava presente um jurista inglês, que aproveitou para louvar, de algum modo, a severa execução da justiça sobre os ladrões que, como disse naquela altura eram enforcados tão depressa, que por vezes havia vinte deles na armação de madeira para enforcados. (…)
Tomei a liberdade de falar livremente perante o cardeal e disse:
- Não há razão para pensar sobre o assunto. Este modo de punir ladrões não é justo em si nem é bom para o público. A solução não é eficaz, pois a severidade é demasiado grande. O simples furto não é um crime tão grande que tenha de custar a vida a um homem e, por muito severo que seja o castigo, não é suficiente para impedir alguém de furtar, por não encontrar um outro modo de vida.
Nisto, não só vós, na Inglaterra, mas uma grande parte do mundo parece imitar maus professores, que estão mais prontos para castigar os alunos do que para ensiná-los. Castigos severos e horríveis são decretados contra o furto, quando seria melhor dar a capacidade a cada homem de ganhar a sua vida, em vez de ser levado à necessidade fatal de furtar e ser morto por causa disso.
(…)
Certamente, é errado pensar que a pobreza do povo é uma salvaguarda de paz pública. (…) Se um rei for tão odiado e escarnecido pelos seus súbditos que só os pode governar através de insultos, de injustiças, da confiscação e do empobrecimento, certamente melhor fora para ele abandonar o reino do que manter o título de autoridade quando já perdera a majestade da realeza, através do seu desgoverno. É menos favorável à dignidade de um rei o reinar sobre pedintes do que sobre súbditos ricos e felizes. (…) Quando um governante usufrui da riqueza e do prazer, enquanto que todos à sua volta estão desolados e gemebundos, ele age como guarda de uma prisão (…)
Um rei que apenas consegue governar o seu povo retirando-lhe os prazeres da vida mostra que não sabe governar homens livres.”



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Utopia
Thomas More