“ (…) Querida Kitty,
Agora que passou pouco mais de um ano desde que viemos para o esconderijo (…) vou descrever-te parte de um dia normal. Começarei pela noite.
Nove da noite. A hora de deitar no anexo começa sempre com uma azáfama enorme. Arrastam-se cadeiras, abrem-se as camas, desdobram-se os cobertores – nada fica onde estava durante o dia. Eu durmo num divã pequeno, que só mede um metro e meio, de modo que temos de acrescentar algumas cadeiras para que fique mais comprido. (…)
Depois de Peter terminar é a minha vez de usar a casa de banho. Lavo-me da cabeça aos pés, e não são poucas as vezes em que encontro uma pulga minúscula a flutuar na bacia (…)
Dez horas. Hora de erguer o quebra-luz e dizer boa noite. (…) Aproximadamente três horas. Tenho de me levantar para usar a lata que tenho debaixo da cama que, pelo sim pelo não, tem um tapete de borracha por baixo para o caso de verter. Prendo sempre a respiração enquanto a uso, uma vez que o líquido faz tanto barulho ao bater na lata como um ribeiro a tombar de uma montanha. (…)
Por vezes as armas disparam durante a noite, entre a uma e as quatro. Nunca me apercebo antes de o fazer, mas de repente dou por mim de pé ao lado da cama, devido à força do hábito. (…) Mas geralmente acordo. Nessas alturas agarro numa almofada e num lenço, visto o roupão e enfio os chinelos, e precipito-me para ao pé do Papá, precisamente como Margot descreveu neste poema de aniversário:
Quando na calada da noite os tiros se ouvem,
Abre-se a porta, rangendo, e então lá vem
Um lenço, uma almofada, uma silhueta branca também…
Abre-se a porta, rangendo, e então lá vem
Um lenço, uma almofada, uma silhueta branca também…
(…)
e um novo dia começa no Anexo.
Tua, Anne
O Diário de Anne Frank
Anne Frank
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