sábado, 28 de novembro de 2009

José Saramago

"(…) Sentou-se o padre numa pedra, fez sinal a Sete-Sóis para que se acomodasse ao lado dele, e enfim respondeu, como se agora mesmo tivesse ouvido a pergunta, Porque eu voei, e disse Baltasar, duvidoso, Com perdão de confiança, só os pássaros voam, e os anjos, e os homens quando sonham, mas em sonhos não há firmeza (…) Pois eu faz dois anos que voei, primeiro fiz um balão que ardeu, depois construí outro que subiu até ao tecto duma sala do paço, enfim outro que saiu por uma janela da Casa da Índia e ninguém tornou a ver, Mas voou em pessoa, ou só voaram os balões, Voaram os balões, foi o mesmo que ter voado eu, Voar balão não é voar homem, O homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará, respondeu Bartolomeu Lourenço
(…)
Baltasar entrou logo atrás do padre, curioso, olhou em redor sem compreender o que via, talvez esperasse um balão, umas asas de pardal em maior, um saco de penas, e não teve mão que não duvidasse, Então é isto, e, o padre Bartolomeu Lourenço respondeu, Há-de ser isto, e abrindo uma arca, tirou um papel que desenrolou, onde se via o desenho de uma ave, a passarola
(…) Encomendemo-nos ao Deus que houver, disse-o num murmúrio, e outra vez num sussurro estrangulado, Puxa, Baltasar, não o fez logo Baltasar, tremeu-se-lhe a mão, que isto será como dizer Fiat, diz-se e aparece feito, o quê, puxa-se e mudamos de lugar, para onde. Blimunda aproximou-se, pôs as duas mãos sobre a mão de Baltasar, e, num só movimento, como se só desta maneira devesse ser, ambos puxaram a corda. A vela correu toda para um lado, o sol bateu em cheio nas bolas de âmbar, e agora, que vai ser de nós. A máquina estremeceu, oscilou como se procurasse um equilíbrio subitamente perdido, ouviu-se um rangido geral, eras as lamelas de ferro, os vimes entrelaçados, e de repente, como se a aspirasse um vórtice luminoso, girou duas vezes sobre si própria enquanto subia (…) céu acima."









Memorial do Convento
José Saramago