sábado, 19 de dezembro de 2009

Patrick Süskind

“ (…) – E, agora, já posso trabalhar na sua loja, mestre? Posso? – inquiriu E. Grenouille (…) O perfume era tão divinamente bom que as lágrimas chegaram de imediato aos olhos de Baldini. Não precisava de fazer qualquer teste; limitou-se a ficar em pé, diante da mesa de trabalho, onde se encontrava a garrafa de mistura e aspirou. O perfume era magnífico. Comparado a «Amor e Psique» assemelhava-se à diferença entre uma sinfonia e o arranhar de um violino desafinado. Baldini fechou os olhos e sentiu-se invadido pelas mais sublimes recordações. Viu-se, ainda novo, a atravessar de noite, os jardins de Nápoles; viu-se nos braços de uma mulher de caracóis negros e divisou os contornos de um ramo de rosas no parapeito de uma janela, acariciado pela brisa nocturna; escutou o canto prolongado das aves e a música longínqua de uma taberna do porto; nesse mesmo instante a pele se lhe arrepiava! Abriu bruscamente os olhos e soltou um enorme suspiro de prazer. Este perfume não se assemelhava a nenhum até então existente. Não era um perfume destinado a fazer com que se cheirasse melhor, nem uma qualquer água-de-colónia. Era algo de inteiramente novo, capaz de criar por si um universo, um universo maravilhoso e luxuriante e logo se esquecia que o mundo à volta possuía de repugnante. Uma pessoa sentia-se rica, livre e boa (…) ”

O Perfume
Patrick Suskind