sábado, 30 de janeiro de 2010

Mia Couto

A menina sem palavras

A menina não palavreava. Nenhuma vogal lhe saía, seus lábios se ocupavam só de sons que não somavam dois nem quatro. Era uma língua só dela (…)
Seu pai lhe dedicava afeição e aflição. Uma noite lhe apertou as mãozinhas e implorou, certo que falava sozinho:
- Fala comigo, filha!
Os olhos deslizaram. A menina beijou a lágrima. Gostoseou aquela água salgada e disse:
- Mar…
O pai espantou-se de boca e orelha (…) Levou a filha para onde havia mar e mar depois do mar. (…)
Foi quando lhe ocorreu: sua filha só podia ser salva por uma história! E logo ali lhe inventou uma, assim:

Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como um baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. (…)
A menina (…) Olhou o horizonte e chamou:
- Pai!
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida da nascença de própria terra. Dos lá bios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.

Chegado a esse ponto, o pai perdeu voz e se calou. (…)
A menina, nesse repente, se ergueu e avançou dentro das ondas. O pai a seguiu temedroso. Viu a filha apontar o mar. (…) uma fenda profunda. (espelho fantástico da história que ele acabara de inventar. (…)
- Filha, venha para trás. Se atrase, filha, por favor…
Ao invés de recuar a menina se adentrou mais no mar. Depois, parou e passou a mão pela água. A ferida líquida se fechou, instantânea. (…)
- Viu, pai? Eu acabei a sua história!
E os dois, iluaminados, se extinguiram no quarto de onde nunca haviam saído.

Contos do Nascer da Terra
Mia Couto